O Início · Episódio 02

O karaokê

O convite chegou numa segunda, pelo grupo da firma primeiro e no meu privado depois. Nessa ordem, e a ordem importa.

Lucas, 10h15: quinta é meu aniversário. karaokê de sempre, pós-expediente. o grupo já sabe. mas eu queria ter certeza de que VOCÊ vai.

Eu li a mensagem duas vezes. A segunda leitura foi só pro "VOCÊ" em maiúscula.

Carla, 10h40: quinta é dia útil, analista. tenho casa, filha, marido.

Lucas, 10h41: tem também um colega fazendo aniversário e um karaokê com seu nome numa fila de música.

Carla, 10h52: vou pensar.

Eu já tinha decidido que ia. O "vou pensar" foi pra ele passar três dias sem ter certeza. Aniversário é dele, mas presente também se dá desse jeito.


Em casa, avisei o Marcos na terça, dobrando roupinha da Sofia no sofá.

Carla: Quinta tem karaokê da firma. Aniversário de um colega. Eu ia, mas tô com preguiça.

Marcos: Preguiça por quê?

Carla: Porque eu vou ter que ir do trabalho direto, e eu não tenho uma roupa que sirva pros dois. Reunião de grade às dez e karaokê às nove da noite não usam o mesmo figurino, amor. E eu não tô a fim de gastar com roupa esse mês.

Ele ficou um tempinho quieto, alisando o babador que tinha acabado de dobrar. Eu conheço os silêncios do meu marido. Esse era um silêncio de quem ia falar alguma coisa que já tinha ensaiado.

Marcos: Compra no cartão da casa.

Carla: Roupa não é gasto da casa.

Marcos: Você é da casa. (disse isso rápido, meio pro babador, meio pra mim) E é aniversário de colega, é... é trabalho, no fundo. Networking. Compra.

Eu olhei pra ele com atenção. O cartão da casa sai da conta dele. As contas da Sofia também são "da casa", e o meu dinheiro é só pras minhas coisas, arranjo nosso de sempre. E o meu marido tava ali, com as orelhas levemente vermelhas, me empurrando pra gastar o dinheiro dele numa roupa pra eu ir bonita pro aniversário de um colega que ele não conhece.

Tem coisas que eu registro e guardo pra entender depois. Essa eu registrei.

Carla: Você que manda. (beijei a testa dele e peguei o celular pra ver vitrine online) Aliás, não. Eu que mando. Você que paga.

Ele riu. A orelha ficou mais vermelha. Anotado também.

Quarta no almoço eu resolvi tudo em quarenta minutos de shopping: uma calça de alfaiataria preta que segura reunião de manhã e vira outra coisa à noite com o botão de cima da blusa aberto, uma blusa de seda que obedece essa matemática, e um salto que aguenta doze horas. Passei na seção de lingerie na saída. A lingerie não precisava coincidir com evento nenhum: ninguém ia ver.

Comprei uma preta, de renda, linda.

Ninguém ia ver. Eu sei. Comprei assim mesmo. A gente se veste por dentro primeiro, e quem entende, entende.


Quinta, nove e meia, o karaokê de sempre, aquele com sofá em U, microfone gorduroso e cerveja em balde. A firma inteira em versão reduzida: só o núcleo que sobrevive a evento pós-trabalho de quinta. O Lucas aniversariante solto, recebendo abraço e coro de parabéns.

O abraço que ele me deu durou meio segundo a mais que os outros. Ninguém viu além de nós dois.

Lucas: Veio.

Carla: Vim pela cerveja.

Lucas: Claro. (o sorriso safado, o olhar descendo rápido pela blusa e voltando educado) A cerveja agradece a produção toda.

E a noite virou aquilo que eu já sabia que ia virar: a gente se orbitando com o salão inteiro de testemunha desatenta. Ele cantou mal uma do Djavan olhando duas vezes pra mim. Eu cantei razoável uma da Marisa Monte olhando zero vezes pra ele, o que em linguagem de karaokê é olhar o tempo todo. Nas músicas de todo mundo junto, aqueles refrões berrados em pé, o ombro dele achava o meu. Ficava. Na terceira vez a mão dele passou pela minha cintura pra "me dar espaço" e demorou na volta, os dedos arrastando na seda um segundo inteiro a mais que o necessário.

Um segundo, eu juro, tem tamanhos diferentes dependendo de onde ele acontece.

Muita cerveja na mesa, balde atrás de balde, e eu no refrigerante, porque tava de carro. Mesmo assim fiquei naquele ponto em que eu rio mais alto e chego mais perto, e ele ficou naquele ponto em que a paciência dele afina. Eu via na mandíbula, no jeito que ele passou a olhar minha boca quando eu falava. E nada aconteceu. Nada podia acontecer: era aniversário DELE, todos os olhos da firma por perto, cada um de nós dois cercado do próprio grupo. A tensão foi só subindo de andar, sem escada pra descer.

No meio disso, meu celular. E eu, bêbada só de tensão, resolvi brincar com o outro brinquedo.

Carla, 23h37: seu cartão fez sucesso hoje. a blusa tá recebendo elogios.

Marcos, 23h38: que bom, meu amor!! de quem?

Carla, 23h40: da firma. e do aniversariante.

Marcos, 23h41: o colega? do karaokê?

Carla, 23h44: esse. ele não sabe que foi você que pagou. eu achei engraçado. você paga a roupa e outro elogia. bom investimento, né amorzinho?

Ele demorou quatro minutos pra responder. Eu imaginei ele no sofá de casa, com a televisão sem som, lendo aquilo e relendo.

Marcos, 23h48: é… acho que é.

Carla, 23h50: você ACHA? 😏

Marcos, 23h51: é bom investimento. usa o cartão quando quiser, meu amor.

Eu guardei o celular sorrindo pra parede. Meu marido tinha acabado de me dizer, com todas as letras que ele tinha coragem de usar, uma coisa que nenhum de nós dois sabia nomear ainda. Eu só sabia que gostava.


Uma e meia, o karaokê fechando, todo mundo se despejando na calçada em bando. E aí a logística, abençoada logística, jogou a bola na minha mão: eu tava de carro, o Lucas tava de aplicativo, e o Lucas mora a três ruas da minha casa. Não oferecer carona seria estranho.

Foi o que eu disse a mim mesma. Não oferecer seria estranho.

Carla: Aniversariante. Bora, eu te deixo em casa.

A firma se despediu, portas bateram, e de repente era isso: eu e ele num carro fechado, uma e meia da manhã, dez minutos de trajeto e cheiro de cerveja e do perfume que restou da noite inteira.

A civilidade durou umas oito quadras. A gente conversou sobre a festa, sobre o colega que desafinou uma da Legião, os dois olhando pra frente com uma compenetração de motorista de autoescola. Eu tava ligada em cada mexida dele no banco do carona. Aí, num semáforo, senti a mão.

Na minha coxa. Em cima da alfaiataria preta que o Marcos pagou. Parada, primeiro, como quem pergunta.

Carla: Lucas.

Lucas: Hm?

Carla: Eu tô dirigindo.

Lucas: Eu sei. Eu tô atrapalhando?

A mão começou a subir. Devagar. Um centímetro por quarteirão, os dedos desenhando a costura interna da calça, e eu apertando o volante e tentando lembrar o que placas de trânsito significam. Quando os dedos chegaram no alto da coxa, quase lá, quase, e ficaram ali desenhando círculos lentos, de quem tem todo o tempo do mundo, eu soltei o ar que tava preso fazia uns quarteirões.

Carla: Isso é maldade.

Lucas: Isso é gratidão. Você me deu carona.

Carla: Eu vou bater o carro.

Lucas: Então para o carro.

A rua dele. Escura, arborizada, uma vaga sob uma árvore convenientemente longe do poste. Eu parei, puxei o freio de mão, e a gente se olhou um segundo, o último segundo civilizado da noite.

O amasso de carro tem regras próprias e a gente quebrou todas menos uma. O beijo veio lento e provocante, daqueles em que a língua promete e recua, e a mão dele foi pra minha nuca, pro meu rosto, desceu pro meu peito e apertou por cima da seda. E eu gemi dentro do beijo e empurrei o peito contra a mão dele pedindo mais. Ele desceu a boca pro meu pescoço. Eu enfiei a mão no cabelo dele e guiei. A outra mão dele achou minha bunda no banco, apertou o que o cinto de segurança deixou, e eu me virei inteira pra ele por cima do câmbio, sem elegância nenhuma, buscando a boca dele de volta.

Minha mão desceu pela camisa, pela barriga, e parou no cinto dele. Ficou ali. Dava pra sentir o calor subindo do outro lado do tecido, a um dedo da minha mão, e eu não desci. Ele gemeu rouco na minha boca só de esperar. Eu deixei a mão parada mais um pouco só pra ouvir de novo.

E foi isso. Tudo por cima. Nenhum botão aberto, nenhuma pele além do pescoço e da boca, a regra que ninguém combinou mas os dois seguraram, e eu não sei por quê. Talvez porque quebrar ela ali, num carro na rua dele, fosse gastar uma coisa que merecia lugar melhor. Talvez porque provocar estivesse gostoso demais pra terminar.

A gente se descolou com a respiração em frangalhos. Ele ajeitou a calça com uma careta honesta.

Lucas: Feliz aniversário pra mim.

Carla: Vai dormir, analista.

Lucas: Vou nada. (abriu a porta, parou, voltou o rosto) Obrigado pela carona. E pela crueldade.

Eu ri e arranquei antes de fazer besteira. No retrovisor, ele ficou parado na calçada me olhando ir, com as mãos no bolso e o gosto de quero mais que eu também levei o caminho todo pra casa, latejando entre as pernas no ritmo do carro.


Casa escura. Sofia dormindo. E eu, acesa que nem falta de luz resolvida.

Acordei o Marcos do meu jeito: subindo nele.

Marcos: (assustado, sonolento) Amor...? Como foi a...

Carla: Foi ótima. Xiu. (puxei a gaveta, peguei o vibrador) Eu preciso terminar uma coisa.

Ele não entendeu nada, e nem precisava. Só precisava ficar duro, e nisso meu marido nunca me deixou na mão. Eu sentei no pinto dele com a lingerie preta que ninguém viu afastada pro lado, liguei o vibrador no clitóris, fechei os olhos.

E terminei a noite onde ela tinha parado: no carro. Na mão subindo pela coxa um centímetro por quarteirão. No aperto no meu peito por cima da seda. Na minha mão parada no cinto dele, a um dedo do que eu não peguei. Só que atrás dos meus olhos não tinha calça nem regra: tinha ele me virando naquele banco e terminando o serviço, e eu rebolei no meu marido pensando no aniversariante, molhada de outra história, gemendo baixinho um nome que eu tive o cuidado de não deixar sair.

Marcos: (embaixo de mim, perdido e feliz) Que bom que a festa foi boa...

Carla: (sem abrir os olhos) Foi ótima... ai... a melhor parte foi no fim...

Gozei forte, apertando ele por dentro, com a imagem do carro estacionado na árvore e o zumbido no talo. Desabei do lado, peguei a mão do Marcos e dei um beijo na palma dela, que era o carinho que eu tinha em estoque.

Marcos: O que teve no fim?

Carla: (já dormindo) Uma carona.

De manhã tinha uma mensagem no meu celular, mandada às 2h58:

Lucas, 02h58: dei três voltas no quarteirão a pé antes de conseguir entrar em casa. isso não vai ficar assim.

Não vai mesmo.

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