O Início · Episódio 03

A festa de fim de ano

Eu devia ter mentido pro Marcos sobre o Lucas.

Não menti. No domingo depois da festa do hotel, semanas antes do karaokê, eu contei tudo na cozinha, enquanto ele descascava batata. O flerte, o apelido, o beijo de três segundos na garagem. Eu me observei contando e me achei estranha: eu estava caprichando no relato. Escolhendo as palavras que doíam melhor.

A faca dele foi desacelerando até parar.

Carla: Amor. Olha pra você.

Ele olhou pra baixo e ficou vermelho. Não negou.

Carla: Se acalma. Não vai acontecer nada.

Ele disse tá bom com a voz de quem diz amém. E eu voltei pro meu café achando que tinha falado a verdade. Esse é o problema de gente organizada como eu: a gente acredita no próprio planejamento.


Seis meses depois, a festa de fim de ano. Só funcionários (regra da firma, abençoada seja). O Marcos ficou em casa com a Sofia sem que ninguém precisasse pedir.

Eu me preparei demais. Registro isso com a honestidade de quem sabe que vai reler: comprei um vestido verde de costas abertas no cartão que ele me deu, e uma lingerie que não servia pra nada além de ser vista, e quando ele perguntou o preço eu respondi "quem pagou foi o maridinho" e ele riu feliz feito bobo. Nós dois fingimos que isso era só uma piada nossa. Cada vez a gente finge um pouco menos.

No espelho, pronta, eu me disse que não estava me arrumando pra ninguém específico.

Também acreditei em mim dessa vez. Eu sou muito convincente.


A Stephanie farejou tudo no Uber, porque a Stephanie fareja.

Stephanie: Esse vestido tem endereço.

Carla: Esse vestido tem dona. Só isso.

Ela riu pro vidro do carro e não gastou o resto do argumento. Amiga boa sabe quando o trabalho já está feito.

A festa era gigante, dois mil funcionários, e eu passei as primeiras duas horas sem ver o Lucas, medindo o salão sem admitir o que eu media. Tem um tipo de mentira que só funciona da boca pra fora. Por dentro eu sabia exatamente quantas entradas o salão tinha, e que os fundos, atrás dos painéis de led, ficavam no escuro.

Quando eu o vi, do outro lado da pista, eu não fui até ele.

Fui até perto dele. São coisas diferentes. Juridicamente.

Dancei com a Stephanie a três metros, de costas pra ele, e contei no corpo o tempo que ia levar. Meia música. O calor dele chegou antes da voz, aquele calor de gente parada perto demais, de propósito.

Lucas: Chefe. Esse vestido devia ser proibido pela CLT.

A boca dele encostava quase na minha orelha por causa do barulho. Quase. Esse quase durou a frase inteira e eu teria pago pra ele durar mais.

Carla: Meu marido que deu.

Lucas: Que homem sortudo.

Carla: O vestido não foi posto pro Marcos.

Eu me afastei o bastante pra ele ler minha cara. Ele leu. Engoliu. E aí (isso é o que me desmonta nele) sorriu devagar, daquele jeito safado, e não fez nada. Guardou. A rodinha dele o chamou, a minha me puxou, e a gente passou as duas horas seguintes em lados opostos do salão, com aquilo aceso no meio.

Homem afobado eu sei domar. Homem paciente é outro campeonato.


Duas da manhã, o celular vibrou.

Marcos, 02h04: está tudo bem? vou dormir, meu amor

Carla, 02h06: ta tudo otimo amorzinho, vai dormir vai 🐂

Eu encarei o emoji uns três segundos antes de enviar. Sabendo o que era. Enviei assim mesmo. Ou por isso mesmo.

A resposta veio em trinta segundos. Depois outra. Eu não li nenhuma das duas. Desliguei a tela e senti uma coisa nova e quentinha se acomodar em mim: em algum lugar da cidade, meu marido estava acordado no escuro, duro, imaginando. Por minha causa. Com a minha permissão de um emoji só.

Guardei essa sensação pra estudar depois. Tinha festa pra prestar atenção.


O fim de festa tem uma física própria: as luzes baixam, o salão esvazia, e o que sobrou de juízo vai embora no mesmo Uber que os colegas sensatos. Duas e meia, o Lucas apareceu atrás de mim. Sem aviso. A boca direto no meu pescoço. Um beijo só, quente, na frente de quem quisesse ver.

Lucas: Vamos pra algum canto.

Eu podia dizer que pensei antes de puxar ele pela mão. Não pensei. A Stephanie ergueu a taça de longe, tipo quem abençoa.

O canto atrás do painel de led era escuro do jeito que os fundos de festa são escuros: o suficiente. E ali, sem plateia e sem música na cara, três anos de flerte cobraram os juros de uma vez.

O beijo foi fundo e devagar, nada afobado, e isso me pegou desprevenida: a língua dele tomando espaço com calma de dono, a mão grande segurando meu rosto enquanto a outra me puxava pelo quadril até eu sentir ele inteiro colado em mim. E eu ouvi um gemido e demorei um segundo pra reconhecer que era meu.

Depois as mãos desceram. Costas. Cintura. E entraram por baixo do vestido direto na minha bunda, as duas, apertando com vontade de quem esperou tempo demais pra ter educação agora. Eu empurrei o corpo contra ele em resposta. A renda nova cumpriu sua única função na vida: ser afastada.

Eu perdi a ordem dos acontecimentos ali. Eu, que decoro cronograma de três novelas ao mesmo tempo. Sei que a boca dele desceu pro meu pescoço e ficou, chupando devagar num ponto que me fez agarrar o cabelo dele. Sei que a coxa dele entrou entre as minhas e eu rebolei nela sem nenhum projeto de disfarce, e que em algum momento eu tava ofegando na orelha dele feito uma louca e não me importei nem um pouco.

Os dedos dele afastaram a renda e me acharam molhadinha, escorrendo, e ele soltou o ar pelo nariz devagar, segurando o próprio gemido. E começou a me tocar ali mesmo, os dedos deslizando fácil de tão molhada que eu tava, e eu tive que morder o ombro dele pra não fazer barulho de verdade. Minha mão desceu e achou, por cima da calça, o pau dele duro por minha causa. Grosso. Latejando na minha palma. Eu apertei e ele gemeu no meu pescoço, e meses de imaginação viraram pouca coisa perto daquilo quente e vivo na minha mão.

A gente ficou ali, cada um na mão do outro, se beijando devagar, e o mundo teve a decência de não existir por um tempo.

Carla: (no ouvido dele) Eu imaginei tanto... e ainda acertei pouco...

Lucas: (a voz saindo torta) Continua falando assim e eu não respondo por mim.

Eu ia continuar falando assim. Era justamente o plano.

Foi quando as luzes acenderam.

Todas. De uma vez. Três da manhã, fim de festa, aquela claridade branca de fim de expediente que não perdoa ninguém. A gente se recompôs rindo e em pânico, roupa, cinto, cabelo, e saiu do vão com dez segundos de diferença e cara de inventário. A menina do figurino olhou. Um segurança olhou. Todo mundo fingiu que não viu nada, que é o acordo mais antigo das festas de firma.

No Uber, a Stephanie esperou eu fechar a porta.

Stephanie: Conta.

Contei. Ela ouviu tudo com a testa apoiada no vidro e no final deu o veredito:

Stephanie: Termina esse serviço, Carla.


Em casa, quatro e pouco. Casa escura, cheiro de bebê, meu marido dormindo. Ou deitado de olho fechado com um boi pastando na cabeça, vai saber.

Eu não o acordei.

Isso é um detalhe, mas eu me conheço: eu sempre acordo o Marcos quando chego assim. É o nosso arranjo, é o uso que eu dou pra ele, é o carinho também. Dessa vez eu passei direto pela cama e me tranquei no banheiro, e só ali, sentada na beirada da banheira com a mão entre as pernas, eu entendi por quê.

Eu não queria diluir. Queria ficar sozinha com aquilo antes que virasse história contada: o quase da orelha, os dedos dele em mim, o pau dele latejando na minha mão.

Cheguei perto do fim e parei. Peguei o celular. Digitei com a mão que tremia um pouco:

Carla, 04h22: foi gostoso, e eu quero mais

Enviei. E me deixei gozar, mordendo o braço pra casa não ouvir, com a resposta dele acendendo a tela no chão do banheiro:

Lucas, 04h24: eu não dormi ainda por sua causa. quando?

Não respondi. Escovei os dentes me olhando no espelho, procurando na cara alguma diferença.

Não achei. A gente atravessa essas fronteiras e a cara continua a mesma.

Deitei de conchinha com o Marcos. Ele se mexeu, meio dormindo, e cheirou meu cabelo.

Marcos: (sonolento) Que emoji foi aquele...?

Carla: Amanhã, amorzinho. Amanhã eu te conto tudo.

O pinto dele acordou contra as minhas costas antes dele. Eu fiquei um tempo no escuro, entre os dois homens da minha noite (um dormindo colado em mim, o outro acordado a poucas quadras daqui), fazendo a conta de quando exatamente eu perdi o controle disso.

A resposta me fez dormir sorrindo: eu não perdi. Eu entreguei. São coisas diferentes.

Juridicamente.

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