A festa
A festa era de lançamento da novela das nove, no rooftop de um hotel que a emissora aluga todo ano, e eu decidi de manhã, escovando os dentes, que ia sozinha.
Carla: Amor, hoje você fica com a Sofia. A festa é chata, é gente do trabalho, você ia ficar segurando copo num canto.
Marcos: Eu não me importo de segurar copo...
Carla: Eu sei que não. Mas eu quero ir sozinha. (passei por trás dele, que lavava a mamadeira, e beijei a nuca) Papai e filha, sessão pijama. A mamãe vai trabalhar de brinco.

Ele não perguntou mais nada. Ele nunca pergunta. Faz três anos que a gente combinou o nosso arranjo (aberto pro meu lado, só pro meu, foi ele que fez questão de que fosse assim) e ele nunca precisou perguntar, porque combinado é combinado. Mas eu vi pelo espelho do corredor que ele me olhou escolher o vestido, o preto de alça fina que ficou parado dois anos esperando meu corpo voltar do puerpério, e vi que ele engoliu seco quando fechou o zíper pra mim.
Marcos: Você tá... nossa.
Carla: Eu tô, né? (girei no espelho) Nove meses de academia pra caber nisso de novo. Alguém vai ter que ver.
Marcos: Alguém... tipo quem?
Carla: Curioso. (belisquei o queixo dele) Vai esquentar a papinha, vai.
E ele foi, e eu juro que ele foi sorrindo. E eu desci pro Uber pensando nisso, no sorriso dele, sem entender direito o que tinha ali, e deixei pra entender depois.

O Lucas eu vi de longe, primeiro, como sempre: não porque ele seja grande (é de estatura normal, corpo comum), mas porque ele ri, e quando ele ri o ambiente inteiro perde um pouco a linha. É o sorriso. É o sorriso e aquele jeito safado de olhar que ele finge que não sabe que tem. A gente flerta há... dois anos? Três? Flerte de corredor, de reunião de grade, de "chefe, assina aqui" com o olhar durando um segundo a mais que o necessário. Ele me chama de chefe porque não sou chefe dele: ele é da outra área, faz meus relatórios, minhas planilhas de elenco, e tecnicamente a gente só trabalha perto, o que mantém tudo naquele limbo delicioso do pode-não-pode.
Ele sabe que meu casamento é aberto. Do meu lado, pelo menos, que é o lado que interessa. Contei ano passado, na festa junina da firma, de propósito, só pra ver a cara. A cara valeu a pena.
Lucas: Chefe. (chegou com dois copos, me deu um sem perguntar) Achei que produtora executiva não descia pra festa de peão.
Carla: Vim fiscalizar o orçamento do open bar.
Lucas: E o vestido é o quê, uniforme de fiscal?
Carla: É armadilha. (bebi olhando pra ele por cima do copo) Tá funcionando?
Ele riu com o corpo todo, daquele jeito dele, e não recuou. Normalmente um dos dois recua, é a regra não escrita do nosso jogo, mas hoje ninguém recuou, e a noite inteira foi isso: a gente orbitando. Na roda do pessoal da produção, o braço dele encostado no meu ombro um tempo além do casual. Na hora do parabéns pro diretor, a mão dele na minha cintura pra me deixar passar, e ficando. Eu dancei perto dele duas músicas, perto do jeito que dá pra fingir que é o espaço que faltava, e senti o cheiro dele de pertinho e pensei uma coisa que eu venho pensando com uma frequência indecente nos últimos meses: deve ser gostoso. O pau dele. Não sei de onde eu tirei essa certeza, porque ele nem é grande. É o jeito. Homem com aquele jeito, aquele sorriso cafajeste na medida, deve ter um pau grosso, gostoso, desses de fazer estrago, e eu tava dançando a um palmo dele com essa imagem na cabeça e a calcinha começando a dar sinal.
Mas festa de firma é festa de firma. Toda vez que a órbita fechava, chegava alguém: a figurinista com crise do episódio 12, o estagiário com o celular, o diretor bêbado querendo abraço. A gente não conseguiu NENHUM minuto sozinho. Uma hora ele me olhou por cima da roda de gente, ergueu o copo meio triste, e articulou sem som: impossível. E eu ri e articulei de volta: covarde. E ele fechou os olhos como quem leva um soco.

Meia-noite e pouco eu desisti. Bebida já tinha passado do ponto do juízo, o salto já tava na mão da consciência, pedi o carro no aplicativo e fui saindo à francesa. E ele apareceu do meu lado no corredor do elevador, do nada, com o paletó dobrado no braço.
Lucas: Te acompanho até embaixo. Corredor perigoso.
Carla: Cheio de analista dando em cima de produtora.
Lucas: Infestado.
O elevador desceu com mais quatro pessoas da firma, claro, porque essa noite era assim. Mas no subsolo, no vão entre a porta de vidro e a coluna da garagem, existiu um segundo em que não tinha ninguém. A gente não combinou nada, só aconteceu: ele me puxou pela mão, eu fui pelo impulso, e o beijo durou o que dura um flash. Três segundos, quatro. Boca quente, a língua dele mal chegou na minha, a mão grande fechando na minha cintura inteira. E aí o barulho de salto no piso, e a gente se separou como adolescente, e a Renata do financeiro dobrou a coluna falando de vale-transporte com alguém.
Lucas: (baixo, na minha orelha) Isso foi um trailer.
Carla: (entrando no carro, pela janela) Trailer bom é o que não entrega o filme.
O carro arrancou e eu fiquei olhando ele diminuir no vidro, com o coração numa batucada e a boceta francamente escandalosa. Eu passei a mão por baixo do vestido no banco de trás (só pra conferir, juro) e a calcinha tava molhadinha. Ensopada de três segundos de beijo e quatro horas de quase.

Em casa, uma da manhã, tudo escuro e cheiroso de bebê. Conferi a Sofia no berço (dormindo de braço aberto, a soberana) e fui pro quarto tirando o vestido no caminho.
O Marcos dormia do lado dele, de pijama, com o rádio da babá eletrônica piscando na mesa de cabeceira. Eu subi na cama e acordei ele do jeito que ele mais gosta de ser acordado, que é sem nenhuma delicadeza e com muita intenção: sentei em cima dele e liguei o abajur.
Marcos: Amor...? Que horas...
Carla: Uma e pouco. Acorda que eu preciso de você. (tirei a calcinha e joguei em cima do peito dele) Sente. Olha o estado que eu cheguei da festa.
Ele pegou a calcinha, meio dormindo, e quando entendeu o peso e o molhado daquilo o olho dele acordou na frente do resto.
Marcos: Isso é... você tá...
Carla: Molhadinha. Não, ensopada. Desde meia-noite. (abri o botão do pijama dele) E você vai me ajudar a resolver, porque é pra isso que eu tenho um marido lindo em casa. Tira isso.
Marcos: O que aconteceu na festa?
Carla: Depois. (parei, olhei pra ele, e resolvi testar uma coisa que eu não sabia que ia testar até a frase sair) Beijei uma pessoa. Rapidinho. Gostoso. Fiquei assim.
E aí aconteceu a coisa que muda esta história, e eu quase perdi porque tava bêbada e com pressa: o pinto dele, embaixo de mim, pulou. Na hora. Duro instantâneo, encostado em mim através do pijama, no exato segundo em que eu disse beijei uma pessoa. Eu olhei pra cara dele. Ele olhou pra mim com as pupilas enormes e a boca entreaberta e não disse nada, e eu não disse nada, e a gente arquivou aquilo num silêncio combinado. Mas eu arquivei anotando.
Peguei o vibrador na gaveta. O ritual de sempre, o único jeito que funciona pra mim com ele, e ele sabe e nunca reclamou: eu sento no pinto dele, que entra fácil, que quase se perde em mim mas esquenta, que é dele e por isso vale, e ligo o vibrador no clitóris por cima. Duas fontes. Ele por dentro fazendo o pouco que faz, o aparelho por fora fazendo o resto.
Sentei. Encaixei. Liguei.
Marcos: Você fica tão linda assim...
Carla: Xiu. Não acorda a Sofia. (apoiei a mão espalmada no peito dele) Fica quietinho e me deixa usar.
Marcos: (um fio de voz) Usa.
E eu fechei os olhos.
E atrás dos meus olhos o meu quarto virava o vão da garagem, e a mão grande do Lucas não parava na cintura dessa vez: descia, subia o vestido, rasgava o que tivesse no caminho. Eu rebolava devagarinho no pinto do meu marido e imaginava o pau do Lucas entrando em mim no lugar dele, grosso do jeito que eu imagino há meses, me abrindo, me preenchendo, e o vibrador zumbia no meu clitóris e as duas camadas se misturavam: o quente real do Marcos, o tamanho imaginado do Lucas, o cheiro dele que ainda tava no meu pescoço de verdade, a voz dele na minha orelha de mentira falando chefe. E eu percebi que tava gemendo baixinho o gemido contido de mãe de bebê pequeno, mordendo o lábio, cavalgando mais fundo procurando dentro de mim um comprimento que não estava lá.
Carla: Ai... assim... quietinho, deixa eu... deixa eu pegar o jeito... ai...
Marcos: (sussurro) Em quem você tá pensando, amor?
Eu abri um olho. Ele perguntou sem dor nenhuma na voz, com o pinto pulsando dentro de mim, duro como eu não sentia fazia tempo. Perguntou querendo a resposta.
Carla: (fechando os olhos de novo, escolhendo dizer) No beijo. Na pessoa do beijo. Imaginando... ai... imaginando como seria por inteiro. Grande. Grosso. Me abrindo todinha... ai, amor, segura minha cintura, segura firme...
Ele segurou com as duas mãos finas e eu gozei uns vinte segundos depois. Gozei apertando o pouco dele com tudo que eu tinha, o vibrador no talo, a imagem do Lucas me pregando na coluna da garagem atrás das pálpebras. Tive que enfiar o rosto no travesseiro do lado da cabeça dele pra não acordar a filha, gritando pra dentro, tremendo em cima do meu marido que sussurrava isso, meu amor, goza, goza pensando. E essa última palavra, pensando, ele disse por conta própria, e eu ouvi, e gozei mais um degrau por causa dela.
Desabei no peito dele. O coração dele tava a mil. O pinto dele ainda duro dentro de mim.
Carla: (ofegando, rindo) Você falou "goza pensando".
Marcos: (depois de três respirações) Falei.
Carla: A gente vai conversar sobre isso.
Marcos: (mais baixo ainda) Tá bom.
Eu saí de cima, deitei do lado, e deixei ele terminar na própria mão me olhando (demorou o quê, meio minuto). Depois ele foi lavar as mãos, conferiu a Sofia no caminho de volta como faz toda noite, e deitou atrás de mim de conchinha, com o nariz no meu cabelo que ainda cheirava a festa e ao cheiro dos outros.
Marcos: Foi bom o beijo?
Carla: Foi um trailer. (puxei o braço dele por cima de mim) Dorme, papai. A sessão dois eu ainda não sei quando estreia.
Ele beijou minha nuca e apagou. Eu fiquei acordada mais um tempo, olhando o rádio da babá piscar no escuro, com uma certeza nova se acomodando no peito junto com o sono:
Alguma coisa começou hoje, em dois lugares: na garagem do hotel e aqui neste quarto. E eu ainda não sei o nome dela.
Mas eu vou descobrir.