Fora do Combinado · Episódio 01

A licença

Pra quem chegou agora, o resumo cabe em cinco linhas.

Eu sou a Carla, trinta e quatro anos, produtora executiva de novela numa emissora grande. Tenho uma filha de um ano, a Sofia, e um marido que eu amo, o Marcos, que cozinha melhor que restaurante, cuida da nossa casa inteira e anda de gaiola com a chave pendurada no meu pescoço, porque foi isso que a gente descobriu que ele é. O meu casamento é aberto só do meu lado, e foi ele que fez questão de que fosse assim. Eu tenho um homem, o Lucas, e uma noite por semana na casa dele, e isso continua do jeito que sempre foi.

E, sábado passado, a minha melhor amiga jantou aqui em casa e viu tudo. A coleira, a tigela, o meu marido comendo do chão do lado da mesa.

Ela foi embora à uma da manhã. Às duas e quarenta e sete o celular acendeu no criado-mudo.

Stephanie, 02h47: amiga. eu preciso te perguntar uma coisa e você não vai rir de mim.

Stephanie, 02h48: ele obedece qualquer mulher ou só você?

Eu não respondi.

Li duas vezes deitada no escuro, com o meu marido dormindo no meu ombro, e deixei a pergunta lá, sem resposta, até segunda de manhã. Não foi esquecimento. Foi o mesmo motivo pelo qual eu demorei nove dias pra responder o "quando?" do Lucas: quem responde na hora entrega o preço.

Segunda, nove e quarenta, na fila do café da emissora, eu escrevi na frente dela.

Carla, 09h41: ele obedece quem eu mandar obedecer. e quem manda sou eu.

A Stephanie leu no celular, a dois metros de mim, e levantou o olho por cima da tela.

Stephanie: Então manda.

Carla: Sexta. Oito da noite. E a gente vai combinar as regras antes, por escrito, que nem contrato de elenco.

Stephanie: (rindo) Você é doente.

Carla: Eu sou organizada. Você que é doente, você me mandou mensagem às três da manhã perguntando do meu marido.


As regras saíram por mensagem ao longo da semana, e eu fui escrevendo com o cuidado de quem monta escala de gravação.

Carla, 12h10: regra 1. eu tenho que estar em casa. não precisa estar no mesmo cômodo, mas na casa.

Carla, 12h10: regra 2. a gaiola não sai. ele não goza. nem por acidente.

Carla, 12h11: regra 3. nada que deixe marca visível. ele tem uma filha e um trabalho.

Carla, 12h11: regra 4. você me conta tudo depois. inclusive o que eu vi.

Stephanie, 12h19: e ele? tem regra?

Carla, 12h20: ele tem uma só. se ele falar "cozinha", acabou, na hora, sem discussão. e você para mesmo que eu não esteja vendo.

Stephanie, 12h26: anotei. amiga, eu tô com a mão tremendo no meio de uma reunião de pauta.

Eu contei pro Lucas na quarta, na cama dele, com a cabeça no peito dele.

Lucas: (rindo alto pro teto) Você vai emprestar o campeão.

Carla: Emprestar não. Ele fica na minha casa, com as minhas regras, e eu olhando.

Lucas: Carla. Você tá emprestando.

Carla: (cutucando a costela dele) Tô alugando de graça.

Lucas: (virando pra me olhar, com aquele sorriso) E você vai gostar ou vai odiar?

Eu não respondi. Ele deixou passar, e eu fiquei com a pergunta entalada a semana inteira, o que prova que ele me conhece mais do que devia.


Sexta. A Sofia dormiu às oito, e a casa ficou só dos adultos.

Eu não mandei o Marcos de coleira na porta dessa vez. Eu mandei ele de calça e camisa, arrumado, de pé na cozinha, porque a Stephanie ia ter que fazer sozinha o caminho de tirar tudo aquilo dele. Era teste de habilidade, não de figurino.

Ela chegou às oito e dez com uma garrafa e as mãos frias.

Stephanie: Oi.

Marcos: Boa noite, Stephanie. Deixa eu pegar o seu casaco.

Ela entregou. Ficou parada no meio da sala olhando pra ele de camisa, e eu vi ela perder o pé. No sábado tinha tudo pronto: o avental, a coleira, o chão. Agora tinha um homem de camisa social servindo vinho, que é o que ela vê no Natal.

Stephanie: (pra mim, baixinho) Eu não sei começar.

Carla: Eu sei. (sentei no sofá, cruzei as pernas e apontei a poltrona pra ela) Senta. Bebe. E fala com ele como quem já sabe a resposta. Não grita, não pede e não explica. Se você pedir, ele vira seu amigo. Se você mandar, ele vira outra coisa.

Ela bebeu meia taça de uma vez. Endireitou a coluna. E tentou.

Stephanie: Marcos... tira a camisa, por favor?

Ele olhou pra mim. Não se mexeu.

Carla: Tá vendo? "Por favor" e pergunta no fim. Você pediu uma opinião.

Stephanie: Puta merda.

Carla: De novo.

Ela respirou. E aí aconteceu a coisa que eu não esperava tão rápido: ela largou a taça na mesa, ficou em silêncio três segundos olhando pra ele, e quando falou, a voz dela desceu meio tom e ficou lisa.

Stephanie: Tira a camisa.

E o meu marido tirou a camisa.

Não olhou pra mim. Não pediu licença. Desabotoou, tirou, dobrou em cima do braço do sofá do jeito caprichado dele, e ficou ali de pé, de peito nu e calça social, esperando.

A Stephanie ficou com a boca entreaberta. Olhou pra mim com um riso que era metade susto.

Stephanie: Ele fez.

Carla: Ele fez.

Stephanie: (pra ele, testando a voz nova de novo) Calça.

Ele tirou a calça. Dobrou. A gaiola rosa apareceu, dia treze, e a Stephanie olhou pra ela com a naturalidade de quem já viu, e aí subiu o olho pro rosto dele.

Stephanie: Ajoelha.

Ele ajoelhou no tapete da minha sala.

Stephanie: Fala o que você é.

Marcos: Eu sou o corninho da minha esposa.

Stephanie: E hoje?

Marcos: (sem pensar) Hoje eu sou o que a senhora mandar.

Stephanie: (pra mim, com a voz falhando de tesão) Amiga. Ele me chamou de senhora.

Eu ri junto. Rimos as duas, e ele ficou de joelhos entre nós esperando, e por fora eu era a dona da casa achando graça com a amiga.

Por dentro eu tinha sentido a ferroada. Uma coisa fina, quente, embaixo do esterno, exatamente quando a palavra "senhora" saiu da boca do meu marido pra outra mulher sem ninguém ter mandado ele dizer.

Eu conheço tesão e conheço orgulho. Aquilo ali não era nenhum dos dois, e eu não gostei de saber o nome.


Ela foi longe, dentro das regras, e foi longe rápido demais pra quem nunca tinha feito nada disso.

Mandou ele engatinhar até a poltrona e servir de apoio de pé, e dessa vez tirou o salto com os dois pés em cima das costas dele e ficou rindo comigo, tomando vinho, com o meu marido de quatro entre nós duas.

Mandou ele lamber o salto. Isso eu não tinha planejado. Ela virou o sapato de bico pra cima, disse "limpa isso aqui" com aquela voz lisa, e ele limpou, e eu vi a gaiola dele pingar no tapete que eu ia ter que lavar no dia seguinte.

Mandou ele latir, e dessa vez não riu. Prestou atenção.

E entre uma ordem e outra ela começou a me fazer as perguntas.

Stephanie: Ele gosta de dor?

Carla: A gente nunca foi por aí.

Stephanie: Você já cuspiu nele?

Carla: Já.

Stephanie: (os olhos brilhando) E ele?

Carla: Engoliu e agradeceu.

Stephanie: (depois de um tempo, com a taça na boca) E se eu der um tapa na cara dele?

Eu levei três segundos pra responder, e nesses três segundos eu vi uma coisa que eu nunca tinha visto na minha melhor amiga em treze anos de amizade: fome. Não curiosidade, não deboche, não zoeira de bêbada. Fome mesmo, de quem descobriu na sala da amiga uma coisa que ela queria desde sempre e não sabia que tinha nome.

Carla: Hoje não.

Stephanie: (na hora, sem discutir, mãos pra cima) Hoje não. Tá.

E ela mudou de assunto, falou da novela, encheu a taça. Eu fiquei com o "hoje não" na boca sentindo o gosto estranho que ele tinha, porque quem sempre disse "hoje não" nessa história fui eu ouvindo, não eu falando. Eu virei a que segura. E a minha amiga, que uma semana atrás não sabia o que era uma gaiola, já tava querendo a próxima coisa.


A Sofia acordou às nove e quarenta.

Eu conheço o choro dela: aquele era o de dente. Eu levantei, olhei pros dois, o meu marido de joelhos e a minha amiga de pés descalços na poltrona, e falei a frase mais banal do mundo.

Carla: Já volto. Não me esperem.

Foi brincadeira. Eu falei rindo.

Eu fiquei quinze minutos no quarto da Sofia. Pomada na gengiva, colo, ela apagou de novo com a mãozinha agarrada na gola do meu pijama, e eu desci a escada sem pressa, porque o cheiro da minha filha dormindo é a única coisa que me faz esquecer o resto.

Quando eu cheguei na cozinha, os dois estavam em silêncio.

A Stephanie tava lavando as mãos na pia, de costas, com a água correndo alta. O meu marido tava de joelhos do lado da bancada, com os olhos vermelhos e a respiração curta, do jeito que fica quem acabou de parar de engasgar. O pano de prato estava no chão.

Carla: Aconteceu alguma coisa?

Stephanie: (fechando a torneira, se virando com o sorriso mais tranquilo do mundo) Ele derrubou vinho. Eu mandei limpar.

Carla: (pro Marcos) Verdade?

Marcos: (sem levantar o rosto) Ela me deu uma ordem e eu obedeci, dona.

Era verdade. Era exatamente verdade. E eu fiz o que eu sempre faço quando estou com a minha filha no ouvido e a casa cheia: eu aceitei a resposta que cabia no momento, peguei a garrafa e enchi a taça da minha amiga.

Só na terça seguinte, no chuveiro, eu ia perceber que o pano de prato estava seco e que não tinha mancha nenhuma no piso.


Às onze ela pediu a outra coisa que eu neguei.

Stephanie: Me empresta a coleira até domingo.

Carla: Pra quê?

Stephanie: (dando de ombros, safada) Pra deixar em cima da minha cômoda. Pra eu olhar pra ela.

Carla: Não.

Stephanie: Amiga...

Carla: (sem levantar a voz, do jeito que eu falo com diretor teimoso) Eu emprestei o cachorro. Não emprestei a coleira.

Ela riu, levantou as duas mãos de novo, e deixou quieto. Me abraçou na porta, cheirou o meu cabelo e falou no meu ouvido que tinha sido a melhor sexta-feira da vida dela, e dessa vez eu ouvi tudo, e dessa vez não teve segredo nenhum, e mesmo assim eu fiquei com a sensação de que teve.


Quando a porta fechou, eu fiquei encostada nela com o meu marido ajoelhado no corredor.

Carla: Levanta. Senta no sofá.

Ele sentou. Eu montei nele de frente, de pijama, a chavinha batendo no meu peito, e segurei a cara dele com as duas mãos.

Carla: Resumo ou detalhe?

Marcos: (a voz rouca) A senhora é quem sabe.

Carla: Detalhe. E olha pra mim enquanto conta.

E ele contou. Contou que a voz dela mudou e que o corpo dele obedeceu antes da cabeça. Contou que ficou com vergonha de o pé dela estar nas costas dele e com mais vergonha ainda de gostar. Contou que na hora de latir ele pensou em mim, procurou o meu olho e não achou, e obedeceu mesmo assim.

Carla: Você gostou dela mandando?

Marcos: Eu gostei de obedecer.

Carla: Não é a mesma coisa.

Marcos: (depois de um tempo, com um cuidado que me atravessou) Não é, dona. Mas eu não sei explicar a diferença com a senhora sentada em mim.

Eu gozei duas vezes nele naquela noite, com o vibrador e ele trancado embaixo de mim, e a segunda foi forte e suja de um jeito novo, porque o que me levou não foi imaginar o Lucas. Foi lembrar o "sim, senhora" dele saindo fácil pra outra mulher na minha sala. Isso me deu um tesão que eu não pedi.

Ele não gozou, porque a regra era essa e regra é regra. Ele agradeceu de olhos fechados, deitou a cabeça no meu colo e eu fiquei passando a mão no cabelo dele até a respiração ficar comprida.

Carla: Você foi lindo hoje.

Marcos: Obrigado, meu amor.

Carla: E amanhã você lava o tapete da sala.

Marcos: Tá bom.

Eu estava quase dormindo, com ele encaixado no meu pescoço, quando a tela do celular dele acendeu na mesinha de centro, virada pra cima, no escuro.

Eu vi o nome antes de entender que não era pra eu ver.

Stephanie.

Ele esticou o braço devagar, com cuidado pra não me acordar, e virou a tela pra baixo.

Eu fiquei de olho aberto no escuro da minha sala, com a chavinha no pescoço e a mão no cabelo do meu marido, pensando numa coisa que eu não esperava pensar nunca nessa história.

Que eu sei exatamente onde o Lucas está, todas as noites, e que agora tem outra pessoa nessa casa que eu não sei.

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